|
(QUEM DIRIA, NERUDA ACABOU NA DELEGACIA DA DITADURA CONSTITUCIONAL DE CHAVEZ (VENEZUELA)
26-02-2005
Foto: Google.com/store/apps/details?id=com.pablo.neruda.poems&hl=pt
Que tem a ver o poeta Pablo Neruda com o Coronel Hugo Chávez e o Prêmio Nobel José Saramago? Tudo a ver!...
As ilações e correlações labirínticas deste enredo kafkiano tem a ver com os absurdos e desvarios de um poder exacerbado e fanatizado.
Fiz de tudo para não entrar nessa briga. Entrei sem querer.
Queria evitar o confronto com forças do obscurantismo por causa do tremendo risco que isso represente para meus amigos venezuelanos e para mim, mesmo à distância.
Tu país está feliz? Falam também de mortes e abusos de poder. Depois do plebiscito, veio a repressão em massa. Lei da mordaça que intimida a imprensa e a mídia. Nós brasileiros conseguimos evitar uma lei desse tipo, que restringiria a liberdade da expressão. Acusações de traição, à pátria, aos oposicionistas. Restrições às atividades de estrangeiros, (mesmo daqueles que vivem lá há décadas e têm filhos venezuelanos). Grevistas demitidos e presos. Em meio a esses horrores denunciados agora principalmente pela web, o Governo Chávez convoca um ato internacional em “defesa da humanidade”!!!
Onde os direitos humanos estão em risco, José Saramago vai ao evento, depois de romper com Fidel Castro — no protesto pela expressão desumana aos dissidentes.
Como é possível que a nossa bandeira de luta contra as injustiças, nossa esperança de um “hombre nuevo”, a Cuba libertária de nossa juventude tenha ainda e cada vez mais presos políticos!
No programa da cerimônia do evento apresentou-se a Cantata para Neruda, o poeta que assistiu os horrores do fascismo na Espanha, as atrocidades do no Chile contra Allende, que foi exilado e perseguido por ditaduras.
Colocamos aqui nesta página que o verdadeiro autor da cantata era Xulio Formoso. Por causa de suas declarações exacerbadas à imprensa sobre os porões da ditadura venezuelana, antes que esta sofresse a censura e a auto-censura depois do Plebiscito, o nome de Xulio foi suprimido e substistuído pelo pseudônimo. Seguiu-se a isso uma perseguição assombrosa que incluiu o grampeamento do telefone da casa do cantor, ameaças envolvendo a filha de 6 anos que frequenta uma escolinha e dificuldades para que suas atividades para que exerça suas atividades profissionais na engenharia de sistemas. Apesar do monitoramento ostensivo da imprensa e da mídia, algumas vozes vêm quebrando o silêncio, em defesa de Xulio Formoso.
Onde eu, Antonio Miranda, entro na ópera.
Xulio Formoso foi meu parceiro nas composições musicais ‘’’’feliz, em 1971, e que deu lugar à atual Fundación Teatro Rajatabla, instituição nacional da qual não mais fazemos parte mas que, com Carlos Giménez, ajudamos a criar.
Xulio Formoso redescobriu-me pela internet, graças aos textos do Projeto Terra Brasilis, um poema-ensaio interpretativo do espaço do tempo e dos valores do Brasil. Tomou a iniciativa de compor uma bela música, a partir do poema “Grande Sertão Veredas” em que homenageio Guimarães Rosa.
Propôs-me uma nova parceria, explicando sua situação de confinamento e de vítima de hostilidades, pensando até mesmo em deixar o país, se aparecesse a oportunidade.
Fui para a Venezuela com o pretexto de passar as festas natalinas com meus amigos.
Como Terra Brasilis aindaestá em fase de escritura, propus a montagem de um espetáculo com poemas selecionados de meus últimos livros — Perversos e Retratos & Poesia Reunida. Começamos de imediato as composições, com o propósito de montar um projeto de captação de recursos para a gravação de um CD e encenação em Brasília. Quando fosse o momento, ele decidiria sobre o seu futuro político.
Nosso objetivo era estritamente artístico.
Eu não tinha ainda uma ideia exata da gravidade da situação, embora percebesse a angústia em que vivia a família dele. Era difícil produzir em semelhantes condições psicológicas.
E agora José?
Daí veio a ideia de montar uma página do Xulio para começar a promoção dele principalmente no Brasil.
Como pretendíamos futuramente viajar com o espetáculo, fizemos bilingue a mensagem e os releases de difusão, atingindo milhares de pessoas.
A repercussão foi extraordinária, com mensagens vindas da Venezuela, do Brasil, do Chile, da Espanha, da Alemanha, de admiradores de sua obra musical.
Cometi o “erro” de registrar a autoria da Cantata de Neruda, na página do Xulio.
De repente chegou um e-mail em que alguém ligado ao Gabinete do Ministro da Cultura Farruco Sesto, tentava ter acesso aos textos de novas músicas.
Farruco e Xulio são amigos de infância, nasceram em Galiza e são venezuelanos por naturalização.
Farruco frequentava o apartamento dos (já falecidos e saudosos) pais do Xulio, onde eu o conheci.
No segundo disco musical dele estão parcerias Formoso e Miranda, assim também de Formoso-Sesto. Os dois depois gravaram um LP com poemas de Farruco musicalizados. Aparentemente, uma amizade indestrutível. Xulio era uma músico famoso e Farruco um poeta quase desconhecido, hoje Farruco é o Ministro da Cultura. Talvez por isso é que Xulio teria sido convidado para compor a Cantata.
Mandei uma mensagem colocando os textos à disposição, deixando claro que as relações culturais entre o Brasil e a Venezuela são as melhores possíveis no marco dos tratados assinados entre o Presidente Chavez e o Presidente Lula.
A pessoa que me escreveu dizia ter-me conhecido nua homenagem que a Biblioteca Nacional da Venezuela me fez em 2003 e que era minha admiradora e que estava indicando o meu nome para ser um convidado oficial para o Festival Mundial de Poesia, a celebrar-se em maio de 2005, com poeta dos cinco continentes.
Informei que havia deixado, para ser entregue ao Ministro, um exemplar de Perversos, com a tradução de Elga Pérez Laborde, atendendo a uma solicitação de um amigo comum que ficara de doar pessoalmente e dar notícias. Coloquei uma dedicatória recordatória daqueles tempos nossos dos anos 70, sem qualquer referência à sua condição de ministro ou qualquer outra conotação bajulatória.
Meu trabalho com Xulio e minhas amizades com membros do atual governo são também pessoais e não políticas.
Dias depois chegou um e-mail extremamente agressivo, enviado por um senhor (Armindo Moreira) mas que, no texto, não colocava seu nome...
Dificilmente um brasileiro escreveria um texto assim pois, mesmo nos ataques mais violentos, tentamos ser cordiais. Como é possível dar a si o nome que se queira na hora de criar um e-mail — mas registrando o próprio nome junto ao servidor e assumindo reponsabilidade legais internacionais quanto à vinculação de materiais criminosos e atentatórios aos direitos constituídos, pensei que poderia se um pseudônimo.
Estava incomodado com a página do Xulio, em que estaria incomodado com a página, enxergando um apoio ostensivo a um “inimigo” da Revolução Bolivariana. Exigia uma retratação por atribuir a Xulio a autoria da Cantata que, segundo o documentarista Armindo, “todo mundo sabia ser de Julio Fernandez, o pseudônimo sob o qual conectava-se o crime autoral do regime chavista.
Qual a relação desse indivíduo com o contato anterior? Certamente, nenhuma. Deve ser uma pessoa encastelada no aparelho de repressão do Estado, talvez agindo por conta própria. Ou seria um fanático ligado a grupos para-militares de “defesa” do regime...
Mas, quando ele tomou conhecimento do conteúdo da página web do Xulio? Trata-se de uma pessoa culta e bem informada, travestida de militante cibernético?
|